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sábado, 8 de julho de 2017

OS LAÇOS


Poderia perder a visão ou a audição, deixar de ver o azul do mar que me acalma em dias mais turbulentos, poderia ainda deixar de ouvir aquela colectânea de músicas que fazem parte de mim. Poderia aos poucos esquecer o som da buzina em dias de intenso tráfico no IC19, a voz estonteante da minha mãe quando está irritada e grita “Filipa, vamos jantar!”, a melodia das quatro estações de Vivaldi, a voz daqueles que amo e o contorno do rosto das suas faces, mas jamais suportaria perder os “laços” com o Mundo.


No entanto, existem alguns laços que deveriam ser cortados com facilidade, mas isso nunca acontece, mesmo quando fechamos os olhos e desejamos com muita força. Deveria existir um remédio para cortar os laços.

Se terminamos uma relação da qual saímos mais mortos que vivos, o que fazer? Vamos ao médico e assim como nas restantes doenças, este passa uma receita que posteriormente levantamos na farmácia, seja um xarope ou uma caixa de comprimidos para cortar os laços. Mas tenho sérias dúvidas quanto à sua eficácia.
Ao tomar estes comprimidos, estaríamos talvez a cortar todo o tipo de laços que até esse momento estabelecêramos com todas as pessoas que cruzaram e fazem parte da nossa vida. Seria no mínimo injusto, atrevo-me a dizer que seria cruel, se pensar no meu vizinho João. Coitado do meu vizinho do segundo andar que mantém uma paixão platónica por mim e mal sabe que, graças à sua mãe, visitei o seu refúgio sentimental, e descortinei os seus mais íntimos segredos. Mais parecia um santuário.
Tem quinze anos e cerca de noventa quilos, mas enquanto há vida há esperança e eu também já tive posters do Leonardo Di caprio espalhados pelo quarto, suspirava com o meu primeiro beijo e acabei por desperdiçá-lo com um primo em terceiro grau, que é feio que dói e quase levei uma lavagem ao estômago de graça. Traumas postos à parte, continuaremos a discursar sobre o tema fulcral, qual era mesmo? Ah… Os laços. Nós e os laços.
Se esta ideia dos comprimidos não é suficientemente boa, porque não existe uma empresa como no filme “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”? Neste filme, um casal de namorados que decide acabar com a relação, e para não sofrerem mais, decidem ir a uma empresa que lhes apagará do cérebro todas as recordações que cada um tem do outro. Estou confusa, o final do filme não se coaduna com a conclusão a que tento chegar. No final, o casal chega à conclusão de que tudo aquilo que vivemos não deve ser apagado e tudo tem uma razão de existir.
Acho que este texto acabou de dar um laço aos meus neurónios, poderia ser um nó, já agora um nó no estômago porque ainda não jantei, mas tem que ser um laço, ou estaria fora do contexto. Mas afinal, laço não é mais que um nó que se desata facilmente.
Hoje durante o almoço, o meu pai, casado, falava sobre a IX Cimeira Luso-Brasileira, na qual se reforçaram os laços económicos e políticos entre Portugal e Brasil. Ó paizinho, eu queria era um cheque envolto com um laço, para ir finalmente ao Brasil. Quem esqueceu o laço encarnado que a Mafaldinha usava? Ou seria rosa? Por falar em laço rosa…
Odiava aquele laço cor-de-rosa que a minha mãe teimava colocar no alto da minha cabeça, tendo eu apenas três anos de idade. Usei-o até aos dez anos, depois passei o testemunho à minha irmã. Ela tirava, eu voltava a por, ela voltava a tirar o laço e eu voltava a pô-lo. Se eu sofri horrores com aquele laço de algodão, quem é que ela julga ser para tirar o raio do laço da cabeça?
Enquanto fumo um cigarro, dou voltas e mais voltas à cabeça na esperança de encontrar alguns laços com a palavra “laços” e sentada na cadeira branca de verga que tenho no meu quarto, pergunto à minha mãe o que a palavra “laços” a faz rapidamente lembrar. Sabem o que responde esta senhora de 57 anos? “Os bolinhos que a tua avó costuma fazer, e que já não como desde o ano passado”. Surpreendente! Sou louca pelos famosos bolinhos e ainda não tinha pensado em incluí-los neste texto. Acho que fico por aqui, não quero cair no laço, ficar presa a este conjunto de significados, porque esta palavra não é mais que uma armadilha, usada no seu sentido figurado como aliança, união… Mas também prisão. São horas de ir dormir.


2010

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i always wonder why birds choose to stay in the same place, when they can fly anywhere on the earth..then i ask myself the same question'
' She had no place she could go without getting tired of it and because there was nowhere to go but everywhere, keep rolling under the stars'