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domingo, 29 de janeiro de 2017

MAKTUB



Olá, o meu nome é Filipa e não consigo dizer-vos ao certo quem sou.
O quem sou, é aquilo que procuro todos os dias. É o que me move, é o que muitas vezes me deixa presa a um determinado lugar ou pessoa, é o que me faz comprar bilhetes de avião só de ida, é o que me faz querer abraçar cada projeto maravilhoso que encontro. Não apenas por umas horas, dias ou semanas. 

Não apenas no terreno, não apenas nas palavras, mas na esperança do reencontro das almas. Porque, em cada olhar, há uma luz. Em cada abraço, há conforto, em cada palavra, há esperança. Em cada  animal que ajudo, sinto-me mais perto do que acho certo. Infelizmente nem todos os projetos são para ser nossos e nós deles. Nem sempre o querermos ajudar, significa que estejamos a ajudar e eu senti isso na Grécia, quando tentei integrar um projeto. Não estando a viver perto da Squat, gastava 40 euros ida e volta, então não conseguia estar presente todos os dias. Apenas fui três vezes, mas bastou para entrar em desentendidos, mas para ter saudades das pessoas que conheci. 
Eu tenho um jeito por vezes ' incompreendido' de mostrar que quero ajudar ou que pelo menos gosto de ter uma palavra, uma voz, gosto que me oiçam e para mim não dá para fazer parte de nada, se eu tiver simplesmente de concordar com tudo e obedecer. Existe sempre outra realidade que é vivida no terreno e não se vê nas fotos ou palavras. Existe sempre afinidades, existe sempre erros que todos, cometemos.

Eu queria um papel mais ativo, não queria ser a cara de nada, queria ser igual. Mas a verdade é que eu já entrara em desvantagem, estava a viver longe, não estava presente como deveria, nem estava dentro do assunto como era necessário estar. Seja como for, é um projeto criado para ajudar e fazer o bem, sem dúvida, mas está ainda muito pouco estruturado e organizado, o que é normal. Está no inicio, mas eu querer ficar dois dias em casa, poupar o dinheiro para comprar um forno para uma das famílias, não foi uma atitude correta da minha parte. Foi realmente estúpido e parecia ser a primeira vez que fazia voluntariado. Fui chamada à razão, mas não entendi. Talvez porque fui chamada à razão de forma errada, fui criticada e apontaram-me o dedo. E eu não gostei, porque mesmo que estivesse prestes a cometer um erro, bastaria explicarem-me e eu não sendo burra, ia perceber.

Imaginem dar um forno elétrico a uma das famílias, para terem no quarto, poderem fazer algumas comidas. Iria gerar invejas, ou desentendimentos, afinal e as outras famílias? Mas na altura achei estar a fazer o bem. Aquelas duas famílias iam poder matar saudades de casa, fazer alguns pratos que só no forno podem ser feitos e poderiam ficar assim, mais felizes.
Mas não estava certa e reconheço. Mas também não é o mais correto estarmos enfiados sempre no quarto da mesma família e não ir a todos os outros quartos, ficarmos a ganhar mais empatia com uma ou duas famílias e ficarmos três horas no quarto a fumar e a levar massagens. Mas isto, isto não é incorreto. Só aos meus olhos pode ser.
Eu estar lá e falar de mim, por exemplo perguntarem pelos meus pais e responder que a minha mãe morreu, mostra fraqueza minha, mostra que não tenho capacidade para estar ali, segundo algumas pessoas.
A meu ver, mostra sinceridade e partilha. Dizem que eles não estão ali para ouvir falar dos dramas dos outros, verdade não estão. Mas se é suposto tratarmos os refugiados de igual para igual, é normal eu poder falar que fiz uma viagem, mesmo que não entre em detalhes. É normal eu ter curiosidade sobre a religião deles, aliás tenho sobre todas. Conheço vários mulçumanos, todos de lugares diferentes, todos eles com muitas diferenças dentro da mesma religião. Queria saber como é que os refugiados mulçumanos da Síria, Jordânia, do Líbano pensam e e vêm a sua religião. E gostei do que ouvi. Eu posso ter uma veia jornalística que me faz ser cusca, faz querer saber mais. Eu estava a ter a oportunidade de conhecer estas pessoas, poder mais tarde falar delas, contar a sua história se elas assim o quisessem. Eu farto-me de ouvir e ler tanta coisa onde os atacam. Chamam de terroristas, dizem que todos são iguais, mas não é verdade e por isso mesmo eu queria saber mais.
Mas eu não podia. Eu não podia tirar fotos porque eles podiam levar a mal, afinal mal me conheciam. Mas logo no primeiro dia pegaram no meu telemóvel, tiraram selfies, não vi nunca nenhum olhar desconfiado, ninguém disse nada. Mas antes de ir lá a segunda vez, fui alertada. Mas depois via tantas fotos a ser tiradas e publicadas que comecei a perceber que eu estava mesmo errada. Calma, eu não precisava de tirar fotos para publicar no insta, para verem a boazinha que eu sou. Foi quando conheci outras pessoas, outras iniciativas, pessoas que agem por conta própria, fazem o que sentem necessidade em fazer para ajudar. A Maria, uma grega, tem um grupo, vai lá todas as semanas cozinhar e oferecer uma farta refeição ao squat. Faz em vários squats, portanto faz isto quase todos dias. Foi ela que me disse para ir devolver o forno novo, pois ela iria dar um usado para a cozinha do squat e assim, todos usariam. Mas não me julgou, muito menos apontou o dedo. Alertou-me para a quantidade de pessoas que usam mil artimanhas para se auto-promoveram com isto do ajudar , alertou para associações que muitas vivem dos fundos, onde muita vez não se sabe para onde vai o dinheiro exatamente, alertou também para o fato de que os refugiados não são todos uns anjos, existe muita coisa que por vezes nos escapa inicialmente, mas também disse que somos livres de ajudar da forma que podemos e o nosso coração nos diz.
Mas a verdade é que eu tinha prometido um forno aquela família e falhei. E senti-me envergonhada, porque sabia que já não iam talvez receber-me da mesma forma, mas também senti que não estando a fazer parte do grupo de voluntárias que me levou para lá, talvez já não fizesse sentido continuar a ir.

Também percebi que elas tinham razão quando disseram que as coisas precisam ser organizadas, devemos ter um objetivo diário ao ir lá. Não podia concordar mais.

E eu acredito que este projeto ganhe terreno, venha a ajudar mais e melhor e é o que desejo. 
O ter existido um mal entendido, pois acho que foi realmente isso que aconteceu, não invalida que eu acredite neste projeto e acima de tudo em quem o criou. Porque acredito.
Fazer voluntariado é acima de tudo, querer dar sem receber nada em troca, mas a verdade é que muitas vezes, recebemos mais em troca do que aquilo que damos. Porque o amor não se paga, não se compra. Os sorrisos são gratuitos, os abraços também. Mas, eles, não ficam por aqui, eles oferecem até , aquilo que lhes falta, a comida por exemplo. Ontem, enquanto me despedia duma das famílias do Squat, agradeci a forma acolhedora como fui recebida por eles, de igual para igual. Disseram que não queriam o meu 'obrigado', porque não se agradece quando se é família.
As histórias que se vão descobrindo, nestes squats, são muitas. As motivações também. São pessoas que fogem da guerra, pessoas que não aguentam perder mais família, crianças órfãs que já carregam nas costas o peso da morte, rapazes que fogem porque vão ser recrutados para o exército, onde serão obrigados a matar. Pessoas que por várias razões, são obrigadas a fugir, a arriscar a vida numa travessia, a largar tudo e agarrarem-se simplesmente à esperança. Essas pessoas, merecem dignidade, respeito e a nossa ajuda. Estou aqui, para pôr tudo de mim, no pouco que lhes possa dar. 
Perdi a minha mãe há cinco anos. A minha mãe estava morta num quarto, ainda de olhos abertos. Fui eu que lhe fechei os olhos, entre lágrimas e uma dor imensurável. Não foi morta por nenhuma bomba, arma nem pessoa. Mas isso, não me deixa menos vazia, revoltada ou sozinha. Eu sei o que é perder quem mais amamos na vida. Não existia, não existe, amor maior do que aquele que eu tenho pela minha mãe. Não há idade para se perder uma mãe. Não há forma de se estar preparada para um 'adeus' definitivo. Mãe é mãe. E por isso eu acho que consigo sentir um bocadinho, por mais pequeno que seja, da dor que estas pessoas sentem. A única maneira de me sentir preenchida, é dando o amor que tenho ao mundo. É sentir que onde quer que a minha mãe esteja, ela vai ter orgulho em mim. E muitas vezes, o orgulho duma mãe, não está nos cursos superiores que os filhos possam ter, mas acima de tudo, no carácter, na personalidade, na alma e no coração dos mesmos. 
Sou atriz, ou se preferirem, aspirante a atriz. Sou uma cidadã do mundo, ou se preferirem, sou uma pessoa que chama casa às pessoas que encontra e não aos lugares que habita.
Neste momento, não estou a representar, mas a interpretar o papel que me preenche o coração: ser humana.
Maktub, foi a primeira palavra árabe que aprendi na vida, significa:  'Já estava escrito', 'tinha de acontecer', 'destino'.
E eu acredito que tudo na vida tem uma razão. Eu tinha de descobrir este projeto, eu tinha de conhecer estas pessoas, eu tinha de falhar, tinha de me ter chateado estupidamente com uma das voluntárias que por sinal sempre gostei imenso, tinha de ter sido como foi e apesar de ter sido uma experiência muito breve, eu vou guardar para sempre comigo. Obrigada.

E que o 'amanhã' possa ser melhor, para todos nós.


Fotografia de : @Mariadcbastos




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i always wonder why birds choose to stay in the same place, when they can fly anywhere on the earth..then i ask myself the same question'
' She had no place she could go without getting tired of it and because there was nowhere to go but everywhere, keep rolling under the stars'