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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

BARCO À VISTA




Eu gosto do inesperado. Mas gosto de acordar todas as manhãs e não faltar o meu Nespresso de caramelo. O ser humano cria hábitos, rege-se por eles. Todo o ser humano deve ser posto à prova, não uma, duas, mas vezes sem conta. No entanto, nem todas elas devem ser sofridas, não devem ser uma âncora, não devem deixar-te estagnada. Há sempre uma hora, em que  levantas âncora e navegas para outro porto. Seguro ou não. Variadas vezes, soltaste a âncora no meio do mar, no meio do nada, no vazio em que tu mesmo te encontras. 

Às vezes, sentimo-nos perdidos, desejamos que alguém apareça e te diga qual o caminho a seguir. Alguém que tenha as mesmas propriedades magnéticas que tem a bússola. Queres alguém que seja a tua bússola.  Mas a verdade é que a solitude é uma dádiva que muitos, gozam no seu esplendor. E estar só, não significa, estar sozinho e, deve ser saboreado lentamente, de forma suave, sem pressa, nem medo. Para quem gosta de chocolate, a comparação é simples. Quando temos uma caixa cheia de bombons, não uns bombons quaisquer, mas OS BOMBONS. Aqueles que te fazem salivar, só de imaginares. O último bombom, é uma despedida lenta, é o último beijo de dois amantes, é o último dia de verão com os amigos, é a última página dum livro que não queres terminar. Mas, os dez bombons que comeste compulsivamente, antes deste último, praticamente, não tiveram sabor. Fazemos isso, todos os dias, nas tarefas diárias, nos gestos pequenos, na vulgaridade do nosso quotidiano. Mas solitude a mais, pode acabar em solidão. Mas a solidão é boa, desde que não se torne na tua única companhia.

A solidão é para mim, um prazer, gostava que fosse compreendida assim. Eu gosto de estar sozinha, porque nem toda a companhia é boa. Pelo menos, não tão boa quanto o estar comigo mesma. 

Normalmente, faço acompanhar-me dum bom vinho tinto. Uma ou outra vez, acrescento à conversa um cigarro ou dois. Mas já Niezsche odiava que lhe roubassem a solidão, eu apenas partilho da mesma opinião. Se é para me roubar a solidão, então que seja um verdadeira companhia. 



Arthur Schopenhauer disse:
“A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Estar só, estar verdadeiramente só, é o maior receio da humanidade. Porque enquanto fugimos, queremos ser encontrados, enquanto sentimos que alguém nos quer ver,  sentimos poder. Mas quando o telefone para de tocar, quando no teu coração já não mora o amor, quando ninguém te procurar mais, é quando a tua alma morre.
Muitas vezes confundimos o estar só, o estar sozinho, o estar perdido, o ser solitário e o viver em profunda solidão.
Por vezes quem quer ser livre a vida toda, corre o risco de terminar sozinho. Muitas vezes, a solidão pode ser o preço a pagar pela liberdade. 
Ninguém deve morrer só. Ninguém deve viver para sempre sozinho. Ninguém deve temer a solidão, mas sim,  aprender com ela. Muitas pessoas vivem uma vida cheia de pessoas à volta, mas no entanto são as pessoas mais solitárias que conheço.
Há pessoas que simplesmente, não conseguem estar sozinhas. Há pessoas que não sabem  que é estar verdadeiramente em sintonia com a dádiva que é poder estar sozinho, ser a companhia de si mesmo, nem que seja por uma tarde inteira. Reservei mesa, no meu restaurante preferido. Vou ver o por do sol à praia. Vais com quem? Vou comigo.

E se o teu EU, gostar de estar contigo, então descobriste o amor. Começaste a amar-te. E se conseguirem, juntos,  assumir e aceitar os erros, trabalhar todos os dias para um EU melhor,  sem nunca desistir, então alcançaste o melhor da palavra: perseverança. 
Quando souberes ouvir-te e ouvir os outros, quando cultivares esse amor que transborda em ti, quando a tua mente estiver embebida em conhecimentos, parabéns, atingiste a sabedoria.

Nessa altura, saberás quem são os verdadeiros amigos e saberás afastar-te do que é apenas ruído.
Nessa fase, bastará um olhar, para alguém que te pertence, saber o que pensas.
Bastará, um conjunto de seis copos de vinho do Ikea, para partilhar as duas garrafas que sempre guardas no segundo armário da cozinha, ao lado do microondas.
Porque esses são os amigos que vão assistir ao teu funeral e tu ao deles. Mas nunca ao das suas almas. Esse, vocês, todos vós, amantes da vossa solidão,  não vão assistir. Porque vão estar juntos,  mesmo quando estiverem longe, até que a carne apodreça e os vossos espíritos se reencontrem.

Se estás no meio do mar, a tentar levantar âncora, mas não sabes que direção seguir. Fuma mais um cigarro, fecha os olhos e respira fundo. Não vou dizer que tens todo o tempo do mundo, apenas, digo-te que tens todo o tempo que te restar, para que nesse teu mundo, nesse teu navio, sejas capitão.

1 comentário :

i always wonder why birds choose to stay in the same place, when they can fly anywhere on the earth..then i ask myself the same question'
' She had no place she could go without getting tired of it and because there was nowhere to go but everywhere, keep rolling under the stars'